Queridos amigos,
É com alegria que partilho convosco estes dias tão importantes para vós. Agradeço o convite do Pe. Pedro Castillo para combater os desafios da nossa vida cristã para este tempo. É significativo que o queirais fazer em conjunto, jovens vindos de todo o mundo, pois estou convencido de que todos necessitamos uns dos outros, sobretudo porque a comunhão é a forma de vivermos como Igreja. E é precisamente a comunhão que hoje mais necessitamos, antes que qualquer coordenação ou organização. O verdadeiro segredo do Evangelho, da mensagem de Jesus, é que nos ensina como formar uma família e não uma organização. Penso, que acima de tudo, o problema se situa na sintonia dos corações e não tanto em fórmulas ou esquemas de coordenação.
1.- Discípulos do Senhor no novo século
Um mundo terminou: terminou o que convencionalmente designamos como o século breve, o tempo entre 1917 e 1989. O mundo que se apresenta nos horizontes de 2000 parece diferente daquele que se via no passado.
Com a queda do muro de Berlim, em 1989, e, em definitivo, com o derrube das ideologias, o panorama alterou-se por completo. Todas estas identidades da velha ordem bipolar, tiveram que ser repensadas ao longo da década 90, tiveram que aprender rápidamente a realcionar-se com uma globalização que se presenta como um novo fenómeno, que domina tanto no terreno da economia como das relações internacionais. Hoje é muito mais confuso orientar-se neste complexo panorama mundial. O sonho de uma paz estável e duradoura, da fraternidade que muitos esperavam até à queda do muro esvaeceu-se. De facto, numerosos conflitos se levantaram. Muitos Estados que no passado se legitimavam segundo algumas ideologias dominantes, hoje temos que as identificar quase exclusivamente com uma identidade étnica, nacional ou religiosa. O fim do comunismo no Leste europeu relançou numerosas identidades nacionais que tinham sido enfraquecidas ou reprimidas. A nação voltou ao cenário europeu com toda a vivacidade e, às vezes, obscuridade. Com a nação ressurgiu também o papel público das religiões, com frequência utilizadas como motivo de legitimidade da identidade.
Especialmente depois dos atentados do 11-Setembro de 2001, do 11 de março de 2004 em Madrid, o mundo parece cada vez mais inseguro. Há muito ódio deambulando pelo mundo. Há raiva em muitos lugares. Há poderes obscuros. Há rascunhos de violência e de terrorismo. E o medo comunica-se muito fácilmente; sempre há algum motivo para temer. Uma consequência deste clima de temor é que, no final, se acaba a pensar apenas no presente, no próprio presente e pouco mais.
Falta um pensamento com os olhos postos no futuro, faltam sonhos sobre o futuro. Hoje, sob a pressão deste clima de inseguridade, quem consegue vislumbrar futuro? Quem pensa no futuro? Com que sonhos olham os jovens o dia de amanhã? O medo, o egoísmo, a inseguridade, roubam o futuro e encerram-nos a todos no presente. Há um grande silêncio perante o futuro. Desde o 11 de setembro estámos imersos num grande presente, com receio do que o amanhã nos possa reservar. Assim, todos se conformam em defender o presente. Este confinar-se a um mundo pequeno, que conhecemos melhor, e que nos faz sentir mais seguros, é uma condição que hoje vivem tanto os indivíduos como os países. Aos grandes sonhos dos anos 60, de um mundo mais justo e em paz, hoje tudo se sustituiu pelo interesse pessoal, pela defesa do bem-estar individual, ou pela tranquilidade de vida. De forma paralela, parece que os países ocidentais escolheram renunciar a intervenir ou a preocupar-se por determinadas partes do mundo actualmente com enormes problemas, como África. É como se certas regiões da terra fossem desaparecendo, repentinamente, do mapa.
A mesma construção da Europa que nos últimos meses viveu momentos decisivos da sua história, com o ingresso de novos membros dos países de Leste, corre o risco de se pensar como uma realidade fechada no mundo ou de terminar num pátio de vizinhos que acabam discutindo entre si, sem olhar mais além das suas quatro paredes. Creio que a União Europeia, principalmente, deveria significar paz: paz entre os europeus que lutaram entre si durante séculos, especialmente com duas guerras mundiais que ensanguentaram a Europa e devoraram com o holocausto o povo judeu e, com ele, a outros grupos europeus, como os ciganos. A “nossa” União Europeia significa finalmente paz entre europeus. Se a guerra entre europeus, duas vezes durante o século XX, significou guerra mundial, hoje – e esta é a nossa esperança- sonhamos que a paz entre europeus seja uma contribuição decisiva para a paz fora das “fronteiras europeias”.
Diante dos horizontes do mundo contemporâneo corre-se o risco de nos sentirmos descontextualizados, dominados pela grandeza dos desafios e pela complexidade dos problemas. É a mesma situação do homem contemporâneo, de ser um “homem descontextualizado”, como muito bem escreve o búlgaro Tzvetan Todorov. Deste sentido de desorientação nascem muitas e variadas atitudes: desde os que se reprimem a si mesmos, dominados por um sentido de impotência, até aos que se cerram na sua própria institução ou grupo social, convencidos que não podem entrar num mundo tão complexo; ou os que se submetem ao consumismo pensando que pouco mais se pode fazer para além de comer, beber ou comprar; ou ainda, os que se abandonam a muitos fundamentalismos. Também nós, e os nossos grupos, apesar da história cristã, podemos ser vítima deste sentido de desorientação, deixando de nos abeirar da janela da vida com amor, ou ainda deixando-nos levar por um sentido de impotência, ou, em última análise, passando os anos dentro dos problemas – e problemas sempre existirão – da nossa institução ou da nossa agregação. Auto conservando-nos e não confrontando-nos com os desafíos do presente.
“Remar pelo mar dentro”, que é o convite de João Paulo II para o Terceiro Milénio, não é algo natural nem simples. Talvez seja um dos convites que se segue com menos intensidade na Igreja de hoje. De facto, o instinto seria de não remar pelo mar dentro, mas procurar um porto um pouco seguro. Não tenhamos ilusões: esta segurança ou esta serenidade de que todos temos necesidade não vem dos programas que traçamos para o futuro, nem das metodologias ou de nos debruçarmos sobre nós mesmos. Muitas vezes exorcizamos os desafios do futuro fazendo programas, repetindo metodologias ou encerrando-nos em nós mesmos. Trata-se de outra coisa: é uma questão de coração. Não são os sábios programas que nos possibilitam a serenidade para olhar para o futuro. É uma questão de coração, ou, se preferem, de espiritualidade.
A desorientação diante do mundo contemporâneo causa medo. E o medo é uma realidade que temos que combater, porque acompanha-nos na vida e na existência como cristãos. Vêmo-lo nas Escrituras: desde o anúncio a María (“não temas”), até ás mulheres no sepúlcro (“não temáis”). Mas também esse convite pouco feminista com que conclui a Primeira Carta aos Coríntios: “Estai vigilantes, permanecei firmes na fé, sede corajosos e fortes” (1 Cor 16,13). Sê-de homens! Toda a Biblia está atravessada por este repto que vem do Senhor ou dos profetas diante do escuro horizonte da manhã. Aos que se dirigiam a explorar a terra da manhã, a da promessa, diz Moisés: “Tende valor” (Nm 13,20). É um problema de coração e não de projectos. Por isso, as palavras que se dirigem ao coração são decisivas: é a Palavra de Deus que se nos oferece. E, ao largo das diferentes estações da nossa vida, cada um de nós está chamado a renovar a relação e a escuta com esta palavra que é “Luz ... para meus passos” (Sal 118).
Esta desorientação diante do grande horizonte do mundo, por vezes gera um péssimismo acerca do que podemos fazer e, então, debruçamo-nos sobre as nossas instituções. Falámos de nós próprios, fazemos que todas as reflexões partam de nós, ou seja, das nossas instituções; e acabamos a falar uma linguagem que só nós compreendemos, que não diz nada aos nossos contemporâneos. É a grande tentação da Igreja, dos institutos religiosos, e todas as realidades: sofrer a “enfermidade” da auto referencialidade. Cada institução converte-se num mundo com seus próprios problemas, suas dores, suas tristezas, e suas particularidades em definitivo. É uma forma nobre de viver para si, quer dizer, para a própria instituição. E em todas as instituições há problemas a debater. Se há desafios –em muitos casos- restringem-se ao mundo da própria instituição. Por outro lado, vê-se também nas ONG’s, nascidas para a ajuda humanitária, com muitos recursos destinados a estes fins, a serem utilizados para fazer viver a própria instituição. Creio que nos devemos confrontar com o mandamento do Evangelho e com a realidade dos desafios do mundo, tendo presente o carácter específico de cada familia eclesial, sem sermos prisioneiros de uma visão auto referencial. Diante da complexidade dos desafios, a tentação consiste precisamente em nos encerrar no próprio mundo.
Não é preciso ser nenhum exegeta para verificar que nas Escrituras cristãs ressoa uma mensagem de universalidade. Esta mensagem suscita uma visão que vai mais além dos reduzidos limites da vida quotidiana e do próprio país: quer chegar até aos limites do mundo intero. É a mensagem do Evangelho. Os confins da missão cristã são os limites do mundo inteiro, tal como se deduz das palavras de Jesus no Evangelho de Marcos: «Ide por todo o mundo e proclamai a Boa Nova a todo o mundo» (Mt 16,15). No Evangelho de Mateus ressoa o mesmo convite com as seguientes palavras: «Ide, pois e fazei discípulos em todas as nações, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,19). Nesta pasagem evangélica aparecem as nações, que ficam inseridas numa missão universal cristã.
Creio que o grande problema do presente é viver uma paixão pelo universal nas nossas comunidades. O diálogo adquire um valor muito especial neste mundo globalizado sem fronteiras onde, como um instinto, renascem as fronteiras por motivos defensivos entre mundos e civilizações. Esta visão universal, ampla, pode ser a das comunidades cristãs. Não tem que ser uma grande comunidade para sonhar em grande escala. Também uma pequena comunidade pode medir-se com os horizontes do mundo, pode viver sua união com o mundo inteiro, pode participar activamente na missão da Igreja. É necessário que as nossas comunidades se habituem a pensar segundo os horizontes do mundo. Às vezes penso que me deparo diante de um retrocesso em relação aos horizontes locais, como uma fixação, muito terrena, da Igreja que, em certos casos corre o perigo de se tornar étnica. A Igreja local não é uma comunidade provincial. Na Igreja deve viver-se esta paixão universal também pelos que estão distantes, pelos que não conhecemos, pelos mundos mais hóstis ou difíceis. É o grande desafio de não amar apenas aos que conhecemos, àqueles que nos amam, aos que nos saúdam ou aos que nos reconhecem... Este é o desafío que a Comunidade de Sant’Egidio se propôs desde o princípio do seu caminho. Um desafío que modelou a nossa história, que não é um programa elaborado com o princípio e executado com o passar dos anos, mas sim de um contínuo interrogar-se diante das perguntas dos homens e da história, respondendo com a força e as palavras que nos dá o Evangelho, sempre com uma pregunta pessoal no coração: eu, que posso fazer?, porque estámos convencidos que o Senhor nos fala a cada um de nós, uma vez que cada um de nós tem o seu carisma, seu dom, para tornar mais efectivo o Reino de Deus nesta terra.
A Comunidade de Sant’Egidio é uma comunidade de leigos, fundada em 1968, num clima de “post-concilium”, num ambiente universitário, e que desde as suas origens se colocou como problema fundamental a escuta e a comunicação do Evangelho. Sant’Egidio nasce num clima de forte efervescência social, de grandes desejos de mudança e de autenticidade, especialmente no mundo juvenil. Era o ambiente da revolução estudantil apoiada numa política marxista, num periodo de primazia da política. Dentro deste clima, Sant’Egidio descubriu a primazia do Evangelho em todas as suas dimensões. Os padres do Concílio animavam os jovens deste modo: "A vós exortamos jóvens, abri o vosso coração às dimensões do mundo, a fim de escutar os vossos irmãos e com ardor coloqueis as vossas energias à sua disposição". Neste contexto, Andrea Riccardi, então jovem estudante e hoje professor de História Contemporânea da III Universidade de Roma, funda Sant’Egidio com a profunda convicção de que apenas homens e mulheres novos podem fazer um mundo novo, e de que o Evangelho é a Palavra que pode renovar os homens e as mulheres desde o seu interior.
O cristianismo passou por um século difícil, o século mais secularizado em toda a longa história cristã. Foi um século muito diferente de todos os outros. No começo deste século e com o passar das décadas, muitos previam a “morte do cristianismo” ou a sua permanência residual diante de um avanço irresistível da secularização dos corações, das mentes e da vida civil. Previsões que se fundamentavam nas dificuldades do cristianismo, na sua marginalização, mais ou menos violenta. O cristianismo não morreu, como hoje podemos verificar, ainda que todos carreguemos os sinais de uma travessia difícil. Os novos movimentos de leigos nasceram, na sua grande maioria, na segunda metade do século. A Comunidade de Sant’Egidio surge em sessenta e oito, quando o ocidente vivia o sonho, um pouco agitado, de uma revolução.
Foi para nós como um silêncio rasgado pela Palavra de Deus. Era o começo de um caminho ao longo do qual se pode dizer que a Palavra de Deus foi como lâmpada para nossos passos que nos levou a descobrir a nossa vocação.
O Padre Men, sacerdote ortodoxo russo assassinado em 1990, no meio de uma grande mudança histórica que, depois da queda do muro de Berlim em 1989, se verificara, dizia: “O cristianismo não fez mais que começar!” No mesmo ano a Redemptoris missio afirmava que a missão da Igreja está ainda nos seus começos. Parecem afirmações retóricas de um cristianismo que celebrou o bimilénio do nascimento de Cristo. Por isso é importante consciencializar-se da passagem histórica que estamos a viver para nos dar conta do valor de este “novo início”.
O cristianismo não morreu na difícil travessia do século mais secularizado da história. Unamuno chegou a falar da “agonia do cristianismo”. Mas não falava da sua morte, senão de uma situação de nova luta. A situação do cristianismo no tempo contemporâneo é de agonia, não de morte mas de luta, e de luta no sentido do apóstolo Paulo. A vida cristã talvez nunca tenha sido fácil, mas assume neste tempo o carácter de uma luta para comunicar o Evangello, de uma luta não doce mas forte. Também o anúncio do Evangelho expressa esta luta num mundo no qual não há, nem sequer nas antigas terras da cristandade, modelos seguros que transmitam, na sociedade hodierna, a fé cristã.
Julgo que devemos assumir este momento histórico em que vivemos como a ocasião para pensar um “novo início” do cristianismo, recordando as palavras do padre Men. Desde já, um começo entendido segundo um sentido profundo da vida cristã, em que a continuidade, a fidelidade e a tradição, se fundem com o novo, de igual modo que o sabio escriba do Evangelho, era capaz de obter do seu tesouro coisas novas e antigas.
Há muito, ainda a descobrir, no tesouro da fé. O “novo início” não é outra coisa senão a afirmação de uma dimensão missionária, comunicativa, em toda a vida da Igreja e na existência do cristão. Esta comunicação pressupõe uma vida cristã profunda, enraízada na fé, espiritualmente madura. É conceber toda a existência cristã e toda a vida da Igreja no marco da missão. Para isso há que partir da consciência de cristão como discípulo: a espiritualidade e a teologia do discípulo são temas nos quais se deveria insistir, pois nunca um cristão deve deixar de escutar e, por sua vez, comunicar. A linguagem, como a imensa maioria das coisas, muda com o passar dos anos, mas, em cada geração, em cada etapa da vida, há que voltar a propôr o caminho da fé. Esta tarefa requer cristãos missionários.
2.- Sal da terra e luz do mundo
Os novos horizontes do mundo contemporâneo falam de um novo início. O Evangelho de Mateus conta que, em certa ocasião, Jesus chamou os seus discípulos e lhes disse: «Sinto compaixão pela multidão» (Mt 15,32). São as palavras que Jesus diz diante das pessoas que o seguia hà três dias e que não tinham nada para comer. Um novo início pede-nos para olhar ao lado de Jesus, que se encontra diante da multidão. E a multidão são as pessoas do mundo comtemporâneo, não só da multidão das grandes manifestações de massas mas também a multidão de processos de globalização, das imagens retransmitidas pela televisão, dos modelos de vida e dos complicados remoinhos do tempo actual.
Um novo início chama-nos a olhar de novo para os apóstolos, junto aos demais discípulos, junto às mulheres, diante da multidão. A expressão da compaixão de Jesus no Evangelho de Mateus é algo que sempre comoveu profundamente a Comunidade de Sant’Egidio: «Ao ver a multidão, sentiu compaixão, pois estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor» (Mt 9,36). Esta passagem do Evangelho foi uma das primeiras sobre a que começamos a reflectir. Este tempo que nos leva a Jesus e à sua compaixão pela multidão, muito mais ampla que os nossos sentimentos de responsabilidade, que o nosso compromisso, nossos projectos, sentido do dever, ou a nossa organização.
A realidade que Jesus, seus discípulos ou discípulas observavam era diferente do actual; contudo, também hoje, entre a multidão, há cansaço e abatimento, «como ovelhas sem pastor». O mundo perdeu o pastor no meio da história de uma cultura individualista, ao mesmo tempo que perdeu os horizontes de referência. Mas o mundo também perdeu um pastor com a queda de grandes utopias e de intensos messianismos que tinham assumido um papel de guia na vida e na actividade de muitas pessoas. No fundo, a esperança de muitos se torna idealizada e politizada. Esta esperança agora desapareceu com as ideologias e com as políticas. O mundo perdeu o pastor entre largos e tortuosos caminhos da psicologia enquanto procurava uma solução para a sua vida, perdeu o pastor entre aquela lei de viver cada dia como amor a si mesmo, considerado como a melhor proteção da nossa existência. O mundo perdeu o pastor…
Precisamente no Evangelho de Mateus, na primeira multiplicação dos pães, os discípulos manifestam a Jesus a sua reserva e o sentimento da sua limitação. Dizem, como sabemos: «Este sítio é deserto e a hora já vai avançada. Manda embora a multidão, para que possa ir às aldeias comprar alimento» (Mt 14,15). Os discípulos estão convencidos de que não podem carregar com a responsabilidade daquela multidão e, depois da insistência de Jesus, respondem declarando a sua impotência e a sua pobreza: «Não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes» (14,17). Significativamente, a pesar da sua anterior experiência, os discípulos, no momento da segunda multiplicação dos pães, têm a mesma reacção: «Onde iremos buscar, num deserto, pães suficientes para saciar tão grande multidão?» (Mt 15,33). Aquela primeira vez não tinha significado nada. Precisamente no início de este episódio Jesus tinha falado aos seus discípulos: «tenho compaixão por esta gente…» (15,32).
Desde o início, precisamente no coração do início, em todo o início, se manifiesta, de maneira evidente, a disparidade entre o grande dever e as energias dos discípulos. É uma situação inicial que, em algumas ocasiões, os cristãos abandonaram por causa da sua presunção de omnipotência. Mas tal disparidade, entre o grande dever e as próprias energias, é evidente, clara desde o início e em todo o tempo. Também é a situação dos cristãos de hoje. O amor do Senhor é realmente grande, muito maior que toda a actuação das Igrejas. Em todo o tempo devemos regresar a isto. O ponto de partida não devemos ser nós, os nossos projectos, ou as nossas intuições; mas o ponto de partida debe ser a fonte da esperança, que é o amor do Senhor pela multidão.
A solidaridade concreta pelos pobres é um aspecto essencial que toda a Comunidade de Sant’Egidio vive, e é com alegria que a partilho diante de parte da familia de São Vicente de Paulo, que forma parte dessa grande história de homens e mulheres que fizeram dos pobres o centro de suas vidas. A parábola do bom samaritano (Lc 10, 25-37) é um grande ícon de encontro com os pobres. É significativa, ainda, a sua proximidade com a passagem de Marta e Maria, a que evoca o profundo laço entre a oração e o serviço aos pobres, como as duas caras da moeda da vida de um cristão. Como podemos meditar na parábola, o mais importante deste encontro é o seu carácter concreto e pessoal. O encontro com o pobre não dever ser para nós uma das tantas e diferentes actividades “programadas” na agenda mas um encontro pessoal que comove e convida à compaixão e à misericórdia. À luz da parábola, se pode comprender o valor de certos gestos que, apesar da sua simplicidade, escondem um grande tesouro de sabedoria e misericórdia evangélicas.
Ao longo destes anos, os pobres converteram-se em nossos irmãos e irmãs: em Sant’Egidio eram consideradas como parte da família, amigos e parentes. Isto torna-se patente tanto através dos serviços da Comunidade, como no cuidado pessoal de cada um dos seus membros. Não falarei sobre as obras de caridade para com os pobres, que são o fundamento da vida e actividade das pessoas de Sant’Egidio. Contudo, direi que, de muitas maneiras, os pobres são evangelizados. O amor pelos pobres demonstra, pelo menos assim acreditamos, a universalidade do nosso amor. Sentimos que essa imagem evangélica onde os discípulos e Jesus se encontravam rodeados de uma multidão, de muitas pessoas com necesidade, de pobres, de leprosos, se actualiza nas nossas vidas. Ser santuário do Evangelho requer também ser santuário da caridade.
Juão Paulo II disse-nos: "vossa pequena comunidade dos começos não colocou a si própria nenhum limite senão o da caridade". Durante estes anos, estes limites da caridade se tornaram maiores. Chegam até às cidades europeias, onde um ancião ou um doente de SIDA já não morrem sozinhos, mas acompanhados de uma pessoa que lhes estende a sua mão. Chegam até às nossas casas para anciãos, nessa luta contra o abandono que é algo perverso nas nossas cidades. Também chegam até às prisões africanas, aos campos de refugiados de Kosovo, ao hospital de Guiné Bissau... Cada membro de Sant’Egidio tem ao menos a um pobre como amigo. Não nos apresentamos como especialistas num ou outro trabalho, contudo, estámos certos de que sem os pobres a nossa vida cristã não seria universal.
Com os meios de hoje, muitas das pobrezas que se considerariam inacessíveis, hoje se tornam acessiveis. O caminho de Jerusalén a Jericó que percorria o bom samaritano se converteu, hoje, no mundo inteiro. A contemplação das pobrezas inacessíveis interpelou-nos e se converteu em mais um desafio para a caridade.
Os cristãos – basta pensar nos Papas do século XX – somos cada vez mais sensíveis à guerra como a manifestação do profundo mal da história. A guerra faz pobres aos países ricos e, para os pobres, é a mãe de todas as pobrezas. En 1989, com o fim da guerra fria, ainda sonhamos que se podia inaugurar uma estação de paz e pôr fim a muitos conflitos. Mas tal não aconteceu. Entre a década de 1990 y 2000 contabilizram-se cinco milhões de mortos e seis milhões de feridos de guerra. A guerra continua a envenenar a vida de muitos povos. Hoje calcula-se que há cerca de 32 guerras no activo e cinco em suspenso. Mas, quem sabe, se não há uma de grandes proporções no horizonte, ainda que esperemos encontrar uma solução pacífica.
Há ainda, esta realidade de guerra difusa num mundo donde, com a ajuda de tantas armas, e armas terríveis, muitos podem fazer a guerra ou servir-se da violência para afirmar-se ou simplemente para viver. A ameaça obscura do terrorismo, dos terrorismos, tem ao mundo em “xeque”. Nestas alturas é fácil o recurso à violencia para justificar qualquer coisa. A guerra difusa é uma realidade do nosso tempo.
Às guerras activas, ao uso normal da violência, acrecentamos que o ex-director geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michel Camdessus, as caracteriza como “a violência da economia”. Ghandi dizia que “a pobreza é a pior violência que pior se pode fazer aos pobres”. Não quero repetir o “rosário” dos números que talvez fosse bom recordar. O futuro estará cada vez mais marcado pela pobreza. A previsão é de um aumento de dois mil milhões de pessoas durante os próximos 25 años, mais de 90% nascidos em países pobres. Algumas regiões do mundo, como África subsariana, não conseguem já conter a crescente pobreza. Desta “violência da economia” surgem as viagens da esperança, representadas pela emigração do Sul do mundo face aos Estados Unidos ou Europa a fim de alcançar um mundo de bem estar, fruto também da polaridade crescente entre os ricos do Norte e os pobres do Sul; assim como a fragilidade de muitos sistemas políticos, pois democracia e pobreza não se dão bem.
E depois do drama da SIDA, que acaba com tantas esperanzas de futuro e que faz viver morrendo. Devemos confrontarmo-nos com os 36 milhões de doentes: 26 que se encontram em África; 6 no sudeste asiático; 1,4 na América latina; 540.000 na Europa occidental; 700.000 na Europa de Leste e Ásia central; e 920.000 na América do Norte. Cerca de 70% dos infectados são africanos. Em Moçambique, onde a Comunidade tem um grande projecto de cura da SIDA e que se estendeu já a outros 9 países africanos, a esperança de vida média de vida desceu dos 40 anos (como era em 1992) a 32 anos en 2002. Uma autêntica dilapidação de vidas humanas e de esperanças. Hoje já não se morre de SIDA! É apenas uma questão de conseguir os medicamentos e de tratar a cura. Para isso é necessário um grande esforço que salvará vidas humanas e aumentará a esperança de países inteiros.
Encontrámos, hoje, numa situação em que tudo se pode ver e saber à distância, ainda que os meios de comunicação façam as suas selecções e haja guerras expostas e outras esquecidas. Mas, diante de uma informação tão vasta, como o contacto com as situações de conflicto, constantemente os cristãos são assolados por uma sensação de impotência. Que podemos fazer com as nossas débeis forças? Como nos podemos inserir em problemas tão grandes e, ao mesmo tempo, tão ditantes? Creio que as comunidades cristãs são um espaço onde não pode haver resignação diante da inevitabilidade da guerra, como estão a fazer uma boa parte da nossa cultura. De facto, existe uma verdadeira cultura de violência que educa as gerações.
A oração e o convite à paz são a primeira expressão de que não baixamos os braços diante da violência. Temos que acreditar na força da oração, que, segundo o que nos disse o Senhor Jesus, pode mover montanhas, inclusive as montanhas de ódio e de violência. Não nos resignamos a que a guerra seja uma companhia inevitável na vida de muitos povos, ou que seja uma necesidade recurrente nas relações internacionais.
Encontramos-nos num tempo em que muitos podem fazer guerra, como as máfias, as guerrilhas ou os grupos étnicos de todo o tipo. Mas não será também um tempo em que todos podemos trabalhar pela paz? Para nós, a história da amizade com Moçambique supôs uma verdadeira revelação da força de paz que existe na vida dos cristãos. Moçambique, último país africano a proclamar a sua independência, em 1975, iniciou logo a seguir uma cruel guerra civil que durou 16 anos produzindo um milhão de mortos e mais de 3 milhões de refugiados. Desde o princípio, a comunidade de Sant’Egidio viveu uma especial solidaridade em relação com este país, através do envio de ajudas humanitárias de diversos tipos. Pouco a pouco, contudo, fomos-nos tornando cada vez mais conscientes que a guerra era a mãe de toda a pobreza do país, e começamos a trabalhar pela paz. Assim, aplicando a sabedoria do papa João XXIII de buscar o que melhor nos une do que o que nos divide para reconciliar as partes em conflito, se conseguiu pôr fim a essa já esquecida guerra africana e gerar uma paz assinada desde 4 de outubro de 1992. A experiência de Moçambique fez amadurecer em nós a consciência de que os crentes podem contribuir para a paz muito mais do que às vezes posmas pensar. Depois seguimos trabalhando pela paz através de diferentes formas, sobre tudo em África, onde a guerra e a guerrilha difusa se converteu numa situação epidémica em muitas regiões. Não se pode esquecer que todo o trabalho pela paz é possivél, sobre tudo para bloquear no terreno o crescimento de conflitos.
Da invocação pela paz à educação na paz, ao trabalho pela reconciliação, há uma luta contra a guerra que que devemos libertar a todos os níveis. “a guerra é satánica”, dizia um antigo papa medieval do século IX, Nicolau I. É um demónio que destrói a vida dos povos, como fazia aquele demónio com o jovem epiléptico que os discípulos de Jesus não eram capazes de curar. De facto, disse-lhes o Mestre, demónios como esse só se expulsam com a oração e o jejum. Penso que hoje devemos estar agradecidos de que a Igreja seja um testemunho de paz. A Comunidade de Sant’Egidio organiza em cada 1 de Janeiro em todo o mundo marchas pela paz em solidaridade com a mensagem de paz do Papa. Estas marchas, ainda que na sua fragilidade, representam professias de paz neste mundo nosso contemporâneo. Esta professia deve ser vivida a todos os níveis onde estamos, e encontrar os leigos e os religiosos juntos.
Os conflitos crescem com força e procuram justificações ideológicas. Assistimos à queda do marxismo e ao desgaste das utopias, instrumentos utilizados também para combater. Hoje a religião apresenta-se como uma ideologia de luta. Verificámos isso nos Balcãs. Vemo-lo no mundo islâmico. Em 1996 foi publicado O choque de civilizações e a nova ordem mundial, do americano Samuel Huntington, que indicava algo que muitos queriam ouvir. Segundo este autor, o mundo articula-se em diferentes blocos de civilizações (a china, japonesa, hindú, islámica, ocidental, latino-americana, e eslavo-ortodoxa): cada civilização tem uma religião de referência. É uma representação que provocou muita discusão, mas que, no fundo, muitos já a esperavam. Não é por acaso que este livro se traduziu em àrabe e que tenha tido uma grande difusão, precisamente, no mundo muçulmano.
O 11 de setembro de 2001, assim como o 11 de março passado em Madrid, parecem confirmar esta tese de Huntington: a existencia de um choque entre o mundo islâmico e o Ocidente. O choque de civilizações é inevitavél e temos que nos preparar para ele: isto o afirmam muitos especialistas. A jornalista italiana Oriana Fallaci, com o seu livro A raiva e o orgulho, que teve um grande êxito de vendas, apesar de falar partindo da sua condição de ateia, exorta os ocidentais a defender o cristianismo diante do islamismo agressivo, especialmente dos imigrantes, e a preparar-se para o duro choque com o mundo muçulmano. Oriana Fallaci vê nos rostos dos muçulmanos emigrantes na Europa a expansão islâmica que quer destruir a identidade cristã e ocidental das terras do Norte: “Com todo o meu laicisismo, todo o meu ateísmo – escreve – estou unida à cultura católica que faz parte da minha forma de me expresar... Ainda que não perdoe ao catolicismo as ofensas que me derigiu durante séculos (começando pela Inquisição...), ainda qu não esteja de acordo com as curas e não saiba que fazer com as orações, o som dos sinos me maravilha”. A tendência é identificar o cristianismo com o ocidente, contrapondo-o ao Islão.
A lógica do choque de civilizações entre o Ocidente cristão e o Islão não pode ser a nossa. Na realidade, mais que um choque de civilizações, encontramo-nos diante de um processo em que todas as identidades, nacionais, religiosas, culturais, ou étnicas, se re-estruturam ao confrontar-se, como estão, com o processo da globalização. Isto gera com frequência contraposições, choques e, inclusive, conflitos. Paradoxamente, o processo de globalização não conduz toda a gente face a uma espécie de cosmopolitismo, mais bem gera fortes reacções de identidade que as religiões também utilizam. Aqui se situa a história de muitos fundamentalismos, entre eles o islamismo (que não é o único, porque bastaria pensar no hinduísta, no judeu, ou até o cristão...).
As nossas comunidades religiosas, os nossos movimentos laicais, têm uma dimensão universal: abraçam pessoas de diferentes linguas e nacionalidades, expressando a universalidade da nossa Igreja e a sua catolicidade. São um sinal que estamos chamados a valorizar, a superação dos nacionalismos e das etnias: são a expressão de uma civilização da convivência entre diferentes pessoas a partir da comunhão da fé. Estejemos atentos diante de situações nas que, em nome da defesa de uma cultura, se introduzem elementos de grupos étnicos e de nacionalismo nos nossos ambientes. Não são poucas as vezes em que nos encerramos em grupos étnicos ou no nacionalismo, sem nos preocuparmos com a nossa identidade neste mundo globalizado.
Penso que os religiosos e os movimentos de leigos, num mundo marcado pelos conflitos de civilizações e de identidades ou pelas guerras, entre novas fronteiras e novas incompreensões, devem ser sinal de unidade. O nosso futuro, neste mundo globalizado, é realizar uma verdadeira civilização de convivio, livre do perigoso gérmen da limpeza étnica ou da loucura de construir sociedades homogéneas e entre iguais, encerradas a diferentes. Que alternativa pode encontrar a civilização do convivio? Nas nossas comunidades, dispersas por todo o mundo, vivemos uma mundialidade especial e um interesse ainda pelo longínquo. Somos um testemunho convencido de que se pode viver a globalização como abertura aos outros, como um sentido de responsabilidade mais amplo... Ter comunidades, irmãos, em tantas partes do mundo, deve levar a sentir essas partes, especialmente as que mais sofrem, como membros da nossa família: em definitivo, o desenvolvimento de uma sensibilidade mais universal através da informação e de uma solidaridade junto dos nossos irmãos que vivem em situações de dificuldade e sofrimento.
Neste sentido, o cristão vai muito para além do Ocidente, ainda que não possa negar que tem aqui muitas das suas raízes. Nossos mundos religiosos estão chamados a viver o desafio da mundialização, realizando uma globalização diferente, a da fé e do amor. Mais, as nossas comunidades que abraçam pessoas do Norte e do Sul, orientais e ocidentais, mostram como se deve e se pode viver em conjunto, mantendo no coração muitas partes do mundo. Na nossa pequenez vivemos concretamente a civilização da convivência. As nossas comunidades levam uma resposta vivida à pregunta angustiada que se apresenta na Europa com a imigração, mas que também se apresenta em África entre as diferentes etnias ou ainda na Rússia: como poderemos viver juntos? Há que encontrar as palavras e os comportamentos para demonstrar como se pode viver juntos à escala mundial, muito para além das muitas barreiras existentes. As notícias das comunidades que se conhecem fazem despertar nos nossos corações o querer saber como vivem e trabalham nossos irmãos e irmãs a muitos km de distância. De aí, que Sant’Egidio tenha uma única página web para todos, onde chegam as notícias de todos. São gestos importantes e significativos para viver a unidade na diversidade, a próximidade do coração na distância física.
3.- A débil força do Evangelho
A primeira obra da Comunidade de Sant’Egidio, em qualquer parte do mundo é a oração pessoal e comunitária. É viver a centralidade da Palavra de Deus na vida de cada um. Ouvir esta Palavra é ouvir o antigo convite de Jesus para nos convertermos em seus discípulos, e que é dirigido a todas as gerações. É o convite à converção e a deixar de viver apenas para si mesmo, e começar, com libertade, a ser instrumentos de um amor maior, sobretudo para com os mais pobres. A escuta do Evangelho é a premissa para poder amar o mundo, aos homens e mulheres deste mundo. Para extrair de cada um o melhor de si mesmo. Escutar e viver a Palavra de Deus como o mais importante da vida, o que quer dizer aceitar não seguir-se a si mesmo, mas a Jesus. A pasagem do Evangelho de Lucas entre Marta e Maria (Lc 10, 38-42) ilustra bem a necesidade desta primazia da Palavra de Deus na nossa vida. A escuta da Palavra permite-nos e pede-nos uma mudança, ser diferentes daquilo que somos. É ouvir uma Palavra que nos convida a viver um grande amor na vida. A oração é um acto de solidaridade, um momento para abraçar o mundo inteiro, as necesidades de todos os homens e mulheres, inclusive aquelas que não podemos tocar com as nossas mãos.
A Palavra de Deus cresce na nossa vida, faz viver e dilata o nosso coração para um mundo em que se vive sem coração. Um bispo de Roma, Gregório Magno, dizia comentando a Ezequiel: “Os oráculos divinos crescem junto de quem os lê, de facto, alguem os compreende tanto mais profundamente quanto mais profunda é a atenção que lhes dirige”. A Palavra de Deus tem coisas novas para nos dizer nas diferentes estações da vida humana e do mundo. Diante da complexidade dos desafios do amanhã estámos chamados a nos enraizar na Palavra de Deus e a renovar a nossa oração.
Mas a nossa oração individual faz-nos e situa-nos na oração comum. No nosso mundo rezamos pouco e mal em conjunto. Penso em muitas missas, reduzidas a simples explicações, onde não se celebra o mistério da presença de Deus. Penso em tantos sermões, dos quais um autor italiano cristão, Carlo Bo, escreveu: “a homilia dominical, suplício dos fíeis”. Aqui, as nossas comunidades, laicais ou religiosas, seguem uma simples força: a de estar dois ou três reunidos em nome do Senhor. Diante de um mundo complexo, há que fazer das nossas comunidades lugares de oração onde se possa encontrar orientação para a própria vida, assim como lugares para oferecer a muitos homens e mulheres desorientados que vivem a nosso lado. É a Palavra de Deus a que responde à desorientação e ao medo: “Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado” (Mt 28,5).
Uma das características que melhor caracteriza a Comunidade de Sant’Egidio é a da oração na cidade aberta a todos. Rezar juntos dilata o nosso coração, ao mesmo tempo, que ajuda a muitos a viver e a rezar. Para nós, a liturgia e a oração são o verdadeiro coração da comunidade, aberto a todos os que a procuram.
Que as nossas comunidades tenham, antes de mais e sempre, o rosto e o coração da oração! Toda a pequena comunidade, religiosa ou laical, pode ser uma ajuda para que toda a pessoa reze, sempre que saibámos acolher-la e, diria, atrair-la. O padre Travrion, que passou anos de vida religiosa clandestina na Rússia e no gulag soviético, e que teve a alegria de poder acabar a sua vida entre monges, dizia: “Se não mostramos a beleza, as pessoas não virão até nós”. É a beleza da oração. Penso que as comunidades religiosas, assim como as laicais, podem viver uma harmoniosa oração em comum e ter lugares atractivos de oração. Mas para isto, uma ou outra vez, há que cortar com os nossos costumes. Demasiadas distinções entre contemplativos e activos, entre leigos e religiosos, distraem-nos da necessidade de rezar para viver o futuro como cristãos e como homens, distraem-nos do facto de que a Igreja de hoje deve oferecer espaços de invocação no coração das nossas cidades, e deve oferecer uma liturgia harmoniosa e eloquente. A liturgia e a oração são uma enorme fonte de amor, que permitem ter uma identidade cristã enraizada, assim como uma audácia no viver.
A primeira maneira de viver esta missão é tornando-nos comunidades litúrgicas e de oração. O medo, o sentido de impotência, e a angústia encontram na liturgia e na escuta da Palavra de Deus o porto sereno da missão, para poder ir mais além. Sobretudo para nos poder libertarrno desse péssimismo que, de vez em quando, domina não só os nossos ambientes como o de muita gente. É o péssimismo de se sentirem poucos, inadequados, envelhecidos, e prisioneiros da própria história. Sempre se podem encontrar motivos para o fundamentar, mas é uma realidade que nos prende.
A missão é a melhor forma de ser Igreja no mundo contemporâneo. Mas não é fácil vivê-lo quando as nossas instituições são, por vezes, protectoras e se absorvem com os seus problemas que não nos deixam sair à rua. Por isso, o problema é também que a vida do cristão seja uma existência comunicativa, no contacto com os outros, na rua, e, sobretudo, não se esqueça de comunicar o Evangelho.
A missão é comunicar uma boa notícia a outro. Sentem-se as nossas comunidades capazes de comunicar algo? Que te posso dar? É a pregunta de Pedro e João diante do paralítico junto à porta do templo. A comunicação do Evangelho ajuda o homem a caminhar com liberdade. A comunicação do Evangelho ao paralítico, num clima de primeiro pentecostes, mostra como os apóstolos respondem com o que têm a um homem que mendiga: “Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho, dou-te: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, põe-te de pé”. É o nome de Jesus anunciado o que o faz caminhar. Este homem volta a caminhar e se põe a louvar a Deus. É o nome de Jesus que os discípulos devem comunicar.
Além disso, essa comunicação é fruto de uma relação pessoal. Pedro, junto a João, fixa o olhar nele e lhe pede que olhe para eles. Depois toma-o pela mão e levanta-o. Toca-lhe e sustem-no. E ele recomeça a caminhar, enquanto da sua boca saem louvores ao Senhor. Não se pode deixar de salientar como, também neste caso, a comunicação do Evangelho tem lugar numa relação homem a homem, naquela insuperável relação pessoal, entre dois corações, olhos nos olhos, entre diferentes mãos, onde se desenvolve a missão cristã. Não é um texto, uma mensagem ou uma proclamação... podem utilizar-se todos os tipos de instrumentos, mas nada pode substituir o encontro entre dois homens à volta do nome do Senhor. A história da comunicação do Evangelho é a história de encontros entre homens. É a história de uma comunidade que se sente toda ela missionária, e também como experiência de homens e mulheres que pessoalmente escolhem, com a sua vida, recorrer o caminho da missão, gastar a sua vida pelo Evangelho. É a história de testemunhos concretos da vida.
Pensou-se que o século XX destruíria a religião e que o século XXI se converteria num século em que a religião não seria mais que um espaço residual. Num mundo em que tudo é mercado também as religiões entraram dentro deste mundo. Porque digo isto quando falo, precisamente, da comunicação do evangelho? Penso que todos somos conscientes de como, precisamente em realidades com maior dificuldade (desde Rússia, África ou América Latina, ou ainda entre os emigrantes), se está a desenvolver a realidade das seitas, que juntam e que propõem, de forma notória e sensível, uma experiência de bem estar religioso. Sobretudo propõem um cristianismo (se é que se pode falar de cristianismo), desvinculado de uma consciência social, individualista, ainda que comunitário, conduzindo a uma posterior fragmentação do mundo cristão e da Igreja. Julgo que este tema nos deve fazer pensar mais profundamente. Quem sabe se esta constatação não nos estimula a um sentido mais profundo e difuso da missão; quem sabe se não nos empurra a fim de nos darmos conta de que este desafio pede à Igreja que assuma formas mais familiares, menos institucionais, menos difíceis e codificadas.
Contudo, e ao mesmo tempo, o século XX, com a sua complexidade, foi o século mais missionário da história. Não é mera casualidade que o século que finda seja considerado como o século dos mártires, de inúmeros cristãos, homens e mulheres, religiosos e leigos, que entre a violência e a barbaridade preferiram salvar a humanidade, antes que salvar as suas próprias vidas. Há uma herança destes novos mártires do século XX que deve ser lida e acolhida. Esta herança mostra-nos qual a vocação dos cristãos deste terceiro milénio. Mostra-nos essa força específica que, em situações de debilidade, os cristãos souberam manifestar.
Sob a violência da perseguição comunista, soviética, europeia ou asiática; sob a violência do nazismo, ou sob a violência de outras religiões, ao comunicar o Evangelho como missionários, entre a crise da África independente, feridos pelo secularização, pela caridade, pela justiça, sob domínio de máfias e terrorismo, ou por violência física; através do seu testemunho cristão “apareceram” milhares de homens e mulheres crentes. Martin Luther King em 1960, dizia: “no meio dos perigos que me rodeiam senti uma paz interior, reconheci recursos de força que apenas Deus pode dar”. O testemunho dos novos mártires é revelador, não apenas pela pressão do mal na história e sobre os crentes, mas também pela força profunda dos cristãos, de homens e mulheres débeis que resistiram até ao fim com um comportamento humano, que não abandonaram os seus fìeis, aos pobres e à sua fé, com a finalidade de salvar suas vidas. Também a Jesus, na cruz, a proposta que irónicamente Lhe fazem é: “sálva-te a ti mesmo, se és filho de Deus, e desce da cruz!” (Mt 27, 40).
Por isso, a Comunidade de Sant’Egidio, com o acordo do Papa, quis dedicar a Basílica de São Bartolomeu em Roma, como lugar de memória dos novos mártires do século XX, e Mons. Vincenzo Paglia, um bispo de Sant’Egidio, é o postulador da causa de beatificação de Mons. Romero. Isto é, para todos nós, submergidos em nossas debilidades, a memória da força da fé, força humilde, de que somos portadores e da qual somos responsáveis diante do Senhor e do destino do mundo, leigos e religiosos juntos diante dos desafios do Terceiro Milénio.
O discurso de João XXIII durante a abertura do Vaticano II, Gaudet Mater Ecclesia, conclui com a pergunta sobre o que a Igreja pode dar aos homens: “Ao género humano, oprimido por tantas dificuldades, tal como naquela ocasião em que Pedro disse ao pobre que lhe pedia esmola: ‘não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho te dou: em nome de Jesus Cristo, o nazareno, levanta-te e anda’”. É a força débil do Evangelho: “quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12, 10), diz o apóstolo Paulo. Há que confiar na força do Evangelho, que é o que podemos dar a um mundo oprimido por tantas dificuldades. Sobretudo diante da complexidade do mundo contemporâneo damo-nos conta da falta de respostas globais a todas as questões. Esta pobreza empurra-nos a um re-meditar sobre o valor da grande resposta, da nossa resposta, da nossa proposta, que é o Evangelho. Isto é, o que temos para dar ao mundo, como diz Pedro ao coxo. É isto que faz com que o homem caminhe. A comunicação do Evangelho, anunciada de pessoa em pessoa, é a circulação dos maiores dons que podem aparecer entre os homens. Não ter as respostas, todas as respostas, aos desafios que mundo nos apresenta, não significa sermos indiferentes ou insensíveis.
Por tudo isto – penso nos religiosos e nos leigos – a cultura é importante. O Senhor, no seu mandamento, pede para amar a Deus com todo o coração, com toda a mente, e com todas as forças. Alguma vez meditámos nesta sua referência à mente? A cultura – se me permitem dizer – não é um conjunto de respostas, senão cultivar a própria mente, torná-la sensível e atenta à complexidade do mundo contemporâneo. A culturafala-nos dos outros, do mundo; aproxima-nos dos problemas mais distantes, familiariza-nos com a complexidade que o tempo nos oferece com a sua linguagem problemática, mais próxima das coisas e dos homens. Às vezes não basta estar presentes e ver, mas há que captar a profundidade das coisas que vemos: a cultura oferece-nos a profundidade destas coisas. A ignorância das Escrituras – dizem os Padres – é a ignorância de Cristo, mas a ignorância da cultura é – permitam-me dizê-lo – ignorância dos homens. Isto não significa ser graduados, mas ter interesse, ler livros, discutir sobre os problemas que não nos afectam directamente na nossa vida quotidiana. Num mundo complexo, a cultura permite-nos ter os pés ascentes em terra. Por outra parte a informação (e aqui refiro-me aos jornais ou debates) aproxima-nos a esse mundo que não está debaixo dos nossos olhos. Talvés possa parecer ridículo, mas acredito que a Biblia deve estar numa mão e o jornal na outra, como dizia o teólogo protestante Karl Barth.
Os desafíos do mundo contemporâneo situam-se numa ordem de complexidade. Não devemos nem podemos defendermo-nos atrás de simplificações, ou tão pouco devemos ter medo da simplicidade do Evangelho. Ser simples, evangélicamente simples, não significa simplificar. A simplicidade do Evangelho deve-se estabelecer em homens e mulheres sensíveis, enriquecidos por esse sentido de profundidade que vem da cultura, por essa simpatia que brota do contacto humano. Por isso, ainda que, sendo simples e débeis, não devemos ter medo de enfrentar os desafios difíceis e complexos.
O século mais secularizado da história, o século XX, conheceu uma profundidade de fé que emerge da memória dos novos mártires. É uma herança que transmite algo fundamental: a força débil da fé. A herança do século XX não é apenas sobre o final da cristandade, da cultura paroquial e de um mundo cristão. Não é o que fica depois de um longo desgaste e muitas fases de enfraquecimento. Não é a herança de uma antiga família nobre em decadência, que deixa algum antigo palácio como museu daquilo que foi ou alguma propriedade para conservar e uma memória para cultivar com um certo gosto arqueológico. João XXIII dizia que a Igreja não é um museu. É a herança de uma força que animou a inúmeros cristãos. É a herança de uma cultura de amor que é a nossa cultura, a cultura que devemos cultivar nestes tempos e que nos toca viver
Trabalho de Grupo:
Perguntas:
1. Assinale os desafios para a JMV que lhe suscitou a conferência escutada.
2. Quais são as características da comunicação do Evangelho na tua comunidade? O que comunicam? Como se reflecte na tua vida pessoal e comunitária?
3. Como é que o mundo e os seus problemas estão presentes na tua vida cristã? A tua comunidade e tu sofrem o sentimento de impotência diante dos desafios da sociedade em que vivem? Quais são as tuas preocupações a este respeito?
4. Que novo começo faz falta implementar na tua Associa